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A gente precisa terminar mais cedo

ECOA

25/10/2019 09h32

É comum, eu ando conversando por aí com muitas pessoas sobre este ponto: quem não mora nas periferias e favelas ainda tem pouca compreensão sobre como os horários regulam o acesso a oportunidades numa cidade feito São Paulo.

O curso estava previsto para ser das 19h às 23h, começou mesmo era 19h30. Os realizadores tinham uma legítima preocupação em garantir que, mesmo sendo pago, e muito bem pago, aquele espaço acolhesse a cidade como um todo: quem poderia colocar a mão no bolso, colocava, mas aquelas e aqueles que tivessem dificuldade que falassem, dava-se um jeito. E assim foi.

Muitos espaços têm despertado para a construção de um equilíbrio entre pagantes e não pagantes, de maneira a democratizar o conhecimento sem que isso prejudique o realizador do evento, que precisa cobrir os seus custos também. E isso é bem interessante, um olhar de cuidado a todo mundo: de quem puxou a formação, de quem consegue pagar e de quem quer participar, mas não tem o dinheiro naquele momento.

Começando, e animado depois de alguns minutos, fomos até perto de 21h30 quando se parou para um café, ir ao banheiro, aquelas coisas. Entre uma parte dos presentes já havia sido notada uma preocupação: se a gente não começou no horário, então quer dizer, também, que iremos até bem mais tarde? Mas, até quanto mais tarde? Parece simples, bobo até, mas não é, acredite.

Quem não mora nas regiões consideradas centrais de uma cidade tem como um das primeiras perguntas quando se esbarra com um curso ou um evento: eu vou conseguir chegar em casa quando este lance acabar? Junto com essa, o preço para ter acesso àquele espaço: quanto custa? Essas duas perguntas já dão pistas de quem irá participar e de onde essas pessoas virão.

É que ao morar nas margens, nas bordas de uma cidade, especialmente, ao se morar em periferias e favelas, geralmente distantes geograficamente de um centro de oportunidades de formação, mais um dos muitos motivos de atenção é a mobilidade, é o como chegar, como sair daquele lugar. Em miúdos: como eu vou chegar em casa se este curso ou evento terminar meia noite, se daqui a pouco a integração metrô-trem acaba? Se em mais 10 minutos o horário dos micro-ônibus no meu bairro mudam completamente?

E não aprofundei aqui o que acontece com as mulheres, e uma multidão de outros medos que se acumulam e que nós, homens, nunca saberemos sentir ou como é.

Diferentemente do centro expandido, que geralmente conta com diferentes formas de locomoção, as margens já têm um desenho de transporte que é diferente. Agora pense nisso somado ao fato de que, à noite, rareiam-se os ônibus e o metrô, que no caso de São Paulo, não é 24 horas. Com isso vai ser bastante comum que, mesmo muito preocupados e preocupadas em garantir que mais e mais pessoas de todos os cantos e classes possam participar de algumas coisas, os realizadores percebam ali perto de 23 horas aquele mesmo grupo específico de pessoas que ele deseja ter participando, se levantando: a distância para chegar em casa grita alto. Se a pessoa calcular um minuto errado, corre o risco não ter como voltar. E aí, vai dormir onde?

No caso do exemplo que eu trouxe no começo, existia uma preocupação e cuidado legítimos em acolher pessoas dos diferentes bairros de uma cidade gigantesca feito São Paulo. Mas voltando para casa, saindo ali no mesmo grupo das 23 horas, eu também fiquei pensando que falta ainda considerar outras coisas nessa vontade de mudança. Como, por exemplo, o horário em de término dos eventos, cursos.

Acabar uma atividade às 23h30 é, de alguma maneira, dizer quem vai poder ir até o fim daquele encontro, absorver tudo que ele pode oferecer. E por aí a gente já pode deduzir como as estruturas se mantém como são hoje, como as desigualdades se perpetuam. E, pensando que a ideia é justamente equilibrar oportunidades e acessos, quem mais precisaria estar naquele lugar, não estará. Ou você acredita que alguém que more distante quase duas horas de um evento arriscaria sair de lá pouco depois da meia noite correndo o risco de não voltar para casa?

Então, além de pensar em como democratizar no aspecto financeiro, gratuidades e outras maneiras, estes espaços que estão preocupados em serem inclusivos precisam considerar que a relação com o tempo também é diferente entre as classes. E, em boa parte das vezes, o acesso, a oportunidade, o tempo e a mobilidade estão entrelaçadas.

Sobre o Autor

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro – UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

Sobre o Blog

Um espaço para boas e necessárias conversas sobre pessoas e seus movimentos de transformação. E todos são.

Tony Marlon