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O Brasil que vem aí vai surpreender quem ama o status quo

Tony Marlon

22/11/2019 09h11

Se quiser um sopro do futuro que está sendo gestado para o Brasil, eu recomendo que vá a um Slam. E se ainda não souber o que é um Slam, que você invista 9 minutos e 49 segundos neste Tedx da Gabz. Aqui tem pistas sobre o que é, mas tem mais sobre o por quê. É neste porque que se aninhou tem uns meses a minha esperança de que… vai passar.

Slam é uma competição de poesia, geralmente com produções originais, em que pessoas da plateia são escolhidas como juradas, ali, na hora, dando notas ao fim de cada apresentação. As vencedoras vão passando de fase até chegarmos à campeã do dia, ou da noite. Uma parte de toda a história é essa.

A outra é o que acontece com todas e todos que assistem, diante dos seus olhos, a poesia descendo do pedestal que historicamente a botaram, como disse dia desses Sérgio Vaz, da Cooperifa. É que a poesia, quando é percebida como hábito de olhar o mundo, ou seja, mora ali em qualquer pessoa que está num ônibus cheio por aí, e não um destino de meia dúzia de predestinados, então, as coisas, todas as coisas, mudam de lugar.

É quando a Adriana, estudante do ensino médio e que trabalha no mercado para completar a renda da família, se reconhece tão poeta quanto aquele homem que já morreu tem um par de anos e que ela viu no livro de português, hoje mais cedo, na escola.

É quando a ficha cai: somos aquelas e aqueles por quem sempre esperamos, sabe.

Dia desses, era noite na Praça Morumbizinho, em São Miguel Paulista, uma das periferias da zona leste de São Paulo, quando acontecia a final nacional do Slam Interescolar 2019. A competição, organizada pelo Slam da Guilhermina em parceria com o Festival do Livro e da Literatura de São Miguel, juntou estudantes de diversas cidades brasileiras.

Imagine, aqui, para onde voa a imaginação coletiva num encontro assim. Para onde sopram as ideias, quais sínteses de país brotam de cada nova poesia declamada lá na frente, e não lá no alto. Quais dores são elaboradas e compreendidas com outras lentes, que só o encontro presencial pode oferecer à vida. Que só quem fala a linguagem do que vivo e vejo pode transformar em rima. E ainda tem aquele abraço que vai acontecendo aqui e ali, produzindo afetos, criando comunidades, encurtando distância entre os iguais e os diferentes.

Parindo novas possibilidades de futuro e de país. Possibilidades mais diversas, mais plurais, como o mundo de fato é.

Quando era criança, eu me perguntava como tantas pessoas de projeção nacional, importantes para os rumos do país, haviam se tornado amigas décadas antes de serem quem haviam se tornado. Via as fotos delas juntas, novinhas, ficava pensando nisso. Hoje eu entendo que elas se esbarraram pela vida como eu vi uma multidão de nós se esbarrando em São Miguel Paulista, naquela noite. Em momentos como aquele que foram construindo a si mesmas, criando visões comuns sobre este ou aquele assunto, fazendo brotar as ideias que nos trouxeram aos dias de hoje.

Se isso já foi assim uma vez, nada impede que seja assim agora.

Eu não tenho dúvidas de que estes espaços estão gestando o futuro do país. O futuro que a diversidade que nós somos, merece. O futuro que não pede autorização para quem sempre se enxergou como a norma, como universal. O dono da última palavra.

Que é de lá que virá uma das muitas presidentes negras que ainda teremos por aqui, e esse dia vai chegar.

E que é de lá que virá a literatura que será estudada um dia nos livros de português. Os mesmos livros de português em que a Adriana nunca se viu. Mas que ali, bem ali no futuro, serão escritos, produzidos, ilustrados e protagonizados, também, por pessoas feito ela.

Quando este futuro chegar, e vai, talvez a gente tenha alguma chance de ser o Brasil do presente.

Sobre o Autor

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro – UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

Sobre o Blog

Um espaço para boas e necessárias conversas sobre pessoas e seus movimentos de transformação. E todos são.

Tony Marlon