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Massacre de Paraisópolis: precisamos de mais vozes por aqui

ECOA

06/12/2019 09h29

Por muitos motivos, as periferias e favelas passaram a ter uma atenção especial dos investidores sociais nos últimos anos. Mesmo que ainda distante da necessidade que as organizações sociais, coletivos e outras formas de trabalho têm para conseguirem estruturar e qualificar o que historicamente já fazem nos territórios, é perceptível que estamos, hoje, melhores que no começo dos anos 2000, por exemplo. 

O campo social compreendeu, enfim, que precisa entregar recursos financeiros, conhecimento técnico, ampliar rede, melhorar as condições de trabalho para quem está atuando na ponta. Ou seja, no dia a dia, lá na rua de chão e barro. São essas pessoas e iniciativas que estão, a partir de microrevoluções locais, transformando a cultura das quebradas, construindo um projeto de país a partir das bordas, das margens.

Hoje existem mais fundos, alianças intersetoriais, editais, políticas públicas, que, aliás, aos poucos estão sendo minadas em todo pedaço do país, e muitas outras formas de apoio, técnico e financeiro, às juventudes transformadoras dos territórios populares. Importante destacar: em alguns lugares existem mais oportunidades de apoio, em outros, bem menos, e precisamos construir soluções para equilibrar isso a médio e longo prazo pelo país.

Mas a transformação social que almejamos não se faz apenas com recursos financeiros e melhoria técnica e institucional das iniciativas sociais. Para construir transformações nas estruturas da sociedade e do Estado, nós precisamos de mobilização social e pressão política. E vamos precisar de todo mundo.

Foi essa pressão política que senti falta ao longo da semana já marcada historicamente pelo Massacre de Paraisópolis.

Numa sociedade em que a taxa de homicídios de jovens negros, com idade entre 15 e 29 anos de idade, é três vezes maior que a de brancos, manter as juventudes pobre, preta e periférica vivas, me questiono, deveria ser um pacto de todo o campo social e ter, de nós, absoluto senso de urgência. Ser uma conversa que permeie todas as organizações, iniciativas, projetos. Eventos.

Estão matando o futuro deste país, diariamente, de muitas formas. O futuro diverso que vai construir a sociedade diversa que a gente precisa e merece ter, e poucas organizações para além do Movimento Negro, de direitos humanos e os coletivos das periferias e favelas, parecem inteiramente comprometidas em denunciar e lutar incansavelmente contra esse genocídio em curso.

Dos 65,6 mil homicídios ocorridos em 2017, 75,5% deles foram contra negros. Entre 2007 e 2017, o assassinato de homens e mulheres negras aumentou dez vezes mais que a de não negros. Estes são Dados do Atlas da Violência, publicação do IPEA.

Dez vezes.

Isso não é motivo suficiente para que todas e todos nós coloquemos a luta antirracista no coração do trabalho que desenvolvemos, não importando ele se for de meio ambiente, educação, alimentação ou antroposofia?

Na última quarta-feira, 4, a Coalizão Negra por Direitos chamou a sociedade para um ato público denunciando o Massacre de Paraisópolis e, mais uma vez, apontou o caráter racista e classista de mortes como essas. Onde estavam todas as fundações e institutos que trabalham com juventudes periféricas e de favelas?

Onde estavam todas as iniciativas que impulsionam projetos e ideias nas quebradas Brasil afora? 

As startups que contam que vão mudar o futuro das favelas e de seus moradores e moradoras?

Onde estavam os investidores sociais, as aceleradoras, as áreas de responsabilidade social das grandes empresas? Os programas de empreendedorismo social. Os Festivais de inovação e impacto?

Que não fosse presencialmente, mas onde foram parar seus posicionamentos? As notas públicas, artigos nas redes sociais, nos sites institucionais? Uma live, um stories dizendo que para ter futuro vamos precisar termos pessoas para construí-lo e habitá-lo? E elas estão sendo mortas, dia sim, dia também?

Se essas iniciativas não responderem a este chamado em tempo, se não se juntarem, para ontem, a quem sempre está na linha de frente do choro e do grito contra o que vem acontecendo com as juventudes das periferias e favelas, em pouco tempo não vão existir jovens para elas apoiarem, reconhecerem com prêmios, para elas convidarem para palestras e rodas de conversa.

Estarão todas e todos mortos.

Em 14 de dezembro tem outro ato marcado, agora em Paraisópolis.
Ainda há tempo.
Ainda.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro – UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

Sobre o Blog

Um espaço para boas e necessárias conversas sobre pessoas e seus movimentos de transformação. E todos são.

Tony Marlon