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'Like' é afeto?

ECOA

24/01/2020 04h00

Outro dia escutei que no mundo de hoje já não parece suficiente existir. Você precisa estar acontecendo. Assim mesmo, no gerúndio. Eu entendi algo como: se você está conectado e não se conta constantemente, para uma grande parte de todo mundo é como se não existisse. Ou fosse deixando de existir em suaves prestações.

Algo como: posto, logo existo.

Uma pista disso que ouvi é: com mais frequência nas últimas semanas, meus amigos e amigas me perguntaram se eu estava bem, se havia acontecido alguma coisa grave. É que eu sumi das redes de repente, e nem foi isso: era Natal, Ano Novo, período de festa e férias. Com tanto mundo e tempo disponível, por qual motivo eu investiria grande parte dele empilhando fotos de como estou feliz aproveitando o descanso? E, assim, pode ser que eu nem esteja feliz, mesmo aproveitando o descanso.

Por que isso acontece?

Dormi com este barulho por semanas até ontem, quando, depois de 22 dias, voltei a colocar alguma coisa nas redes sociais. A pausa nem foi premeditada, só foi acontecida mesmo. Outro foco, outras prioridades nesse meio tempo. Foi estranho: hoje eu acordei buscando alguma história para publicar, e logo, e eu nem havia me levantado ainda.

Uma coisa leva a todas, e estou aqui pensando como as redes sociais constroem essa necessidade em nós, uma lógica de recompensa que nos faz, ao publicar algo, em seguida já querer publicar de novo, e de novo, e de novo. Pelo que andei lendo de especialistas, as recompensas são os "likes", os comentários, os corações que brotam na tela do celular e outras tantas figurinhas. E que tudo, por lá, é arquitetado para construir em nós, aqui, essa sensação de que estamos sendo recompensadas pelo que publicamos.

Veja, o Facebook, dona do Instagram, conta que o Brasil tem mais de 50 milhões de pessoas usando a plataforma. Só para a nossa cabeça realizar o que isso significa na prática: é maior que a população da Espanha. Ou dos nossos vizinhos e vizinhas Argentina e Colômbia. É muita gente acontecendo ao mesmo tempo. É muita informação, são muitos estímulos por minuto. É tudo no superlativo, muito e muito. Não é de se estranhar que os malefícios sejam tão estratosféricos quanto os benefícios.

A Royal Society For Public Health, uma organização de saúde pública do Reino Unido, publicou em maio do ano passado uma pesquisa com jovens entre 14 e 24 anos sobre uso das redes sociais. Descobriram que o Instagram é a plataforma que mais influencia o sentimento de comunidade e bem-estar – ao mesmo tempo em que é a que mais constrói sensações de ansiedade e solidão. É sobre eles por lá, mas tenho a impressão de que pode funcionar para nós por aqui também.

Pode parecer contraditório aparecer o sentimento de comunidade ao mesmo tempo que o de solidão, mas não é. Estar conectada ou conectado a diversas pessoas de todos os cantos não quer dizer, necessariamente, que eu faça parte de uma comunidade. Para isso acontecer, a gente precisa de espaço, de tempo e de situações para construir afetos e laços entre nós. Precisamos de rituais que nos identifiquem como uma comunidade.

Nem todos os seguidores e seguidoras do Messi, por exemplo, compartilham dos mesmos valores. Eles se conectam pelo Messi. E pode ser que seja apenas isso mesmo, e segue o jogo de existir.

O Sigmund Baumann, aquele senhorzinho simpático que cunhou o termo da liquidez para o tempo, o amor, as relações, e tudo mais, também falou bastante sobre a virtualidade da existência. Vou trazer duas que me recordo de cabeça – eu emprestei o livro para alguém que até agora não me devolveu, não deu para consultar para escrever aqui.

  1. Estamos vivendo o tempo da primeira geração que não terá direito ao esquecimento. Estamos registrando, minuto a minuto, toda a nossa trajetória de vida. No futuro, com 100 anos, vamos conseguir o que as pessoas que vieram antes de nós nunca conseguiram: olhar a vida, imageticamente, em perspectiva. E tem outra:
  2. Somos uma geração que está se acostumando a nunca estar sozinha, a sempre estar disponível para o mundo, on-line para o outro e para a outra. Se lembro bem ele escreveu algo perto disso: se a gente está o tempo todo acontecendo nas redes, em qual momento estamos existindo apenas para nós mesmas? A gente tem cuidado deste tempo, ou só estamos existindo coletivamente, publicamente? O que acontece quando não temos tempo de produzir subjetividades – essencialmente, construir quem somos como sujeitos no mundo?

Pensa assim: nas redes, a gente é algo como aquele compacto das escolas de samba, sabe, que vai ao ar na tarde do dia seguinte ao desfile. Aquilo ali são só os melhores momentos, uma edição do todo. Agora, imagina a gente ser estimulada, diariamente, a ter uma vida perto de algo como os melhores momentos do outro que a gente acompanha? Humanamente impossível.

São muitas coisas, minha cabeça deu um nó.

O André Biazoti, amigo querido e uma pessoa que o mundo inteiro merece conhecer, compartilhou um livro chamado "No Enxame", de Byung-Chul Han. Um dos trechos diz assim:

"Arrastamos-nos atrás da mídia digital, que, aquém da decisão consciente, transforma decisivamente nosso comportamento, nossa percepção, nossa sensação, nosso pensamento, nossa vida em conjunto. Embriagamos-nos hoje em dia da mídia digital, sem que possamos avaliar inteiramente as consequências dessa embriaguez".

E mais isso:

"Uma outra temporalidade caracteriza a carta ao leitor. Enquanto se redige esforçadamente a mão ou com a máquina de escrever, a exaltação imediata já desvaneceu. A comunicação digital, em contrapartida, torna uma descarga de afetos possível. Já por conta de sua temporalidade, ela transporta mais afetos do que a comunicação analógica".

É bom parar e pensar sobre esses invisíveis, não é? Mas eles mexem um tanto com a nossa imaginação, também. A ideia aqui não é transformar as plataformas em vilãs. A gente ama encontrar, semanalmente, um novo malvado favorito para depositar responsabilidades e consciências que são nossas. Aqui, a ideia é conversar sobre quem detém o poder dessa relação: a rede social ou nós?

Se não fossem essas plataformas, se não fosse o Instagram, eu nunca conseguiria enxergar o mundo pelos olhos do André Gravatá, nem conversar com a Amanda Ramalho, nem me inspirar com tudo que o Jota Marques é, existindo. Menos ainda trocaria dicas de livros inspiradores com a Jéssica Gonçalves ou com a Aline Santos, como se estivéssemos uma ao lado da outra, no pôr do sol que a gente só assistiu, nem tirou o celular do bolso.

O Instagram, pra mim, é isso: eu, sendo apenas um, querendo ser várias numa vida só, não vai dar tempo, pegando emprestado os olhos de quem eu sigo para acompanhar o mundo. Ao fim do dia, eu sou: o que vivi no Campo Limpo, o que só a Renata enxergou nas ruas de Lisboa, os lugares que o Raul visitou no Rio de Janeiro. O coração no caminho, na calçada, que só a Sandra viu, em Poços de Caldas.

Escrevi mais para pensar em voz alta em qual momento, em meio a isso tudo, eu não perco um pôr do sol por estar publicando, naquele momento, o mesmo sol se pondo. Existir, acontecer. Ou como faz para que o "like" seja apenas atalho para um abraço forte bem em frente ao Cine Odeon, já que a vida continua a ser isso de olhar nos olhos. Continua, né?

Ah, você esperava um conclusão?
Era só uma conversa, mesmo.

Sobre o Autor

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro – UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

Sobre o Blog

Um espaço para boas e necessárias conversas sobre pessoas e seus movimentos de transformação. E todos são.

Tony Marlon