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800 mil mortos em cem dias: como?

ECOA

04/02/2020 04h00

Eu fechei a última página de 'Baratas', livro da ruandesa Scholastique Mukasonga, e fiquei algum tempo imaginando o que eu gostaria de fazer com tudo que estava sentindo. E não era pouco o que eu estava sentindo.

A partir de um relato autobiográfico, a escritora revisita os sucessivos conflitos entre Tutsis e Hutus ao longo de décadas em seu país. Ela é Tutsi. Faz isso recontando a história da própria família. Em 1994, mais de 800 mil pessoas, em sua maioria Tutsis, foram mortas em menos de cem dias. Mãe, pai, irmãos. Mukasonga perdeu 37 familiares. Perdeu o norte, o chão. Para escapar do genocídio foi para o Burundi, país vizinho. Depois para a França, onde mora até hoje.

Baratas, ou inyenzi, eram como os Tutsis eram chamados.

Muitas perguntas ficaram fortes em mim depois de ler Mukasonga. Me perguntei, por exemplo, se as vidas dessas mais de 800 mil pessoas ganharam da mídia internacional a mesma atenção e cobertura que a morte de um europeu ou norte americano. Não lembro, eu era muito criança.

Me perguntei, por exemplo, se o genocídio ruandês ganhou destaque das páginas dos livros didáticos que eu usei, como outros importantes fatos históricos do século passado. Realmente não me recordo e isso é uma pergunta.

Em um dos trechos, Mukasonga narra o momento em que a ajuda internacional retira do país voluntários estrangeiros quando percebe a escalada da violência. Ela e seus vizinhos, família, percebem que estavam sozinhos em meio àquilo tudo. Eles por eles mesmos. Que precisariam se salvar como podem.

Foi aí que Mukasonga percebeu que a solidariedade pode ser bem seletiva, às vezes.

Escrevi para Mukasonga. As redes sociais encurtam estes caminhos, e era a única coisa que consegui imaginar fazer com o que eu estava sentindo depois do livro. A agradeci por ter buscado memórias tão dolorosas, por ter transformado isso em um documento histórico tão importante e necessário. Ela agradeceu a mensagem. Importante que uma coisa escrita de tão longe, sobre outro longe a mais ainda, chegasse aqui e reverberasse em mim. A ponto de eu escrever e agradecer por tanto.

Este livro não sai de mim.

E ainda tem isso: a gente diz o suficiente quando algo nos toca tão profundamente um tanto assim, como este livro me tocou? Outra pergunta: a gente verbaliza para outro, para a outra, quando algo que ela fez, pensou, produziu, criou, nos deixa perto da nossa melhor humanidade?

Será que não é importante alguém que mexa tanto em nós saber que nosso jeito de existir caminhou sete passos à frente só por causa dela? E caminhou.

Fiquei imaginando depois, ainda feliz por ter merecido alguns minutos de uma história tão importante como a de Mukasonga: o que está acontecendo exatamente agora, aqui no Brasil, que quando nossas netas e netos olharem em perspectiva, ali pelo futuro, se perguntarão: como é que nossos avós não fizeram o impossível para evitar que isso continuasse a acontecer?

Mil coisas me passam pela cabeça.
E pela sua, quantas?

Leia Mukasonga. Leia Baratas.

Leia as entrelinhas.

Sobre o Autor

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro – UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

Sobre o Blog

Um espaço para boas e necessárias conversas sobre pessoas e seus movimentos de transformação. E todos são.

Tony Marlon