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Parece que é o inimigo quem decide quando ofendeu

ECOA

18/02/2020 04h00

Pelo Campeonato Português, no último fim de semana, o atacante Marega, do Porto, abandonou o campo após atos racistas vindos de parte da torcida do Vitória de Guimarães, seu ex-clube.

O presidente do Vitória, Miguel Lisboa, cumprindo a máxima do Barão de Itararé de que é de onde menos se espera que não vem nada mesmo, trocou um lugar na história do futebol mundial por uma relativização. Ou passada de pano, chame como quiser.

Na coletiva de imprensa, o presidente disse que não percebeu nenhum insulto racista no estádio. E mais: que enxergou, sim, foi uma atitude provocatória do atacante contra sua torcida. E ainda não acabou: puxou do passado uma certa vez, de um certo dia, de quando Marega ainda era jogador do Vitória e quis abandonar o campo, exatamente como fez no domingo. Naquela vez, explicou o dirigente, nada tinha a ver com racismo.

Nas entrelinhas, o famoso veja bem, vocês podem estar exagerando.
C
lássico é clássico, e vice e versa.

Pior que um clube ou dirigente não se comprometendo seriamente contra o racismo nos estádios, é um clube ou dirigente com discurso protocolar sobre apuração e responsabilização de envolvidos em casos como este. E foi exatamente o que Miguel fez: abriu um amplo espaço para possíveis dúvidas sobre quem sofreu a violência.

Em quê isso ajuda?
O inimigo, aqui, é essa mentalidade.

Discursos protocolares banalizam os crimes, naturalizam as violências. Diluem na rotina situações que nem deveriam estar acontecendo mais num mundo em que, com um aplicativo, eu converso com uma pessoa que mora do outro lado da Terra. Como a gente consegue construir coisas assim, mas continua acreditando que atuar contra o racismo é assunto apenas de homens e mulheres negras, eu realmente não sei. 

O racismo é estrutural. Ele está no invisível das coisas todas, dos espaços, das relações. Do dito, mas também do não dito. E não seria diferente no mundo do futebol. Com você, as palavras do comentarista de arbitragem Paulo Cesar de Oliveira, no programa Seleção SporTV. Elas ajudam a entender melhor o que é racismo estrutural: "Normalmente, os cargos de chefia, as pessoas que ditam as regras, que fazem os regulamentos, são brancas. Os brancos dificilmente passam por uma coisa como essa".

Pessoas brancas feito eu, e talvez você aí outro lado que está lendo, se beneficiam socialmente numa sociedade racista. Então não basta, apenas, que sejamos contra o racismo. Precisamos ser antirracistas, é diferente. É se comprometer com gestos concretos para acabar ele em qualquer parte, a todo momento. Entende?

Já passou da hora de todos os clubes de futebol subirem o tom contra o racismo e outras formas de violência, como o sexismo ou homofobia. Especialmente nos estádios, mas também fora deles. Quando que um time inteiro, e não apenas o jogador ou jogadora vítima da violência, vão se retirar do campo contra o racismo? Eu tenho fé que verei.

O futebol não existe para além da sociedade, em um lugar à parte. O futebol existe com a sociedade, na sociedade. Um clube e seus ídolos tem uma responsabilidade social do tamanho das paixões que carregam, e podem, com alguns movimentos, impulsionar debates essenciais na sociedade.

Não é mais possível que jogadores, aqui chamando para a conversa as pessoas brancas, ainda pouco ou nada se posicionem fortemente numa luta antirracista, a compreendendo como é um movimento necessário e urgente para todas e todos nós.

Que todos os clubes do mundo se inspirem no Esporte Clube Bahia, que em novembro do ano passado, lançou o Dedo na Ferida, movimento que questiona a estrutura do próprio clube, convocando dirigentes, jornalistas, torcidas e patrocinadores para entender e combater o racismo institucional e estrutural.

E que o meu time, e o seu, nos encha de orgulho também neste campo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro – UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

Sobre o Blog

Um espaço para boas e necessárias conversas sobre pessoas e seus movimentos de transformação. E todos são.

Tony Marlon